quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Educação e a perversão queer... ops! Subversão queer.



Há em nossa sociedade preceitos normativos de todas as espécies. Alguns deles são os que norteiam a sexualidade. Os sujeitos são classificados e hierarquizados de acordo com a aparência de seus corpos (as “marcas” da raça, gênero, geração, condição social...), através das suas sexualidades, de seus modos de vida. A teoria queer arrisca em criar preceitos antinormatizadores, que permitem pensar os sujeitos fora dos limites impostos por determinada cultura, no nosso caso a cultura heteronormativa ocidental, que coloca a heterossexualidade como uma expressão natural dos prazeres e dos desejos de todos os indivíduos.

Porém, os indivíduos embarcam em uma extraordinária viagem entre as várias, aliás, infinitas possibilidades de identidades, pois mesmo com fronteiras bem definidas, há aqueles sujeitos que rompem as regras e as transgridem. Dentro das escolas, são esses os alvos das pedagogias corretivas. O queer não pretende instaurar um novo processo de sujeito, mas esclarecer o caráter cultural e não-fixo de todas as identidades, “não se trata de ter sua figura como exemplo, mas entendê-la como desestabilizadora e geradora de novas percepções” [LOURO, Guacira]. A intenção aqui é eliminar a binaridade de gênero.

O atual modelo normatizador da sociedade, que doméstica corpos e almas, não é suficiente com relação aos “novos sujeitos” e suas “novas demandas” que nascem em meio ao construto normativo social. As identidades sexuais (gay, lésbica, bissexual, heterossexual...), com seus contornos e limites, são questionadas justamente por não abarcarem a complexidade e pluralidade das possíveis práticas e formas da sexualidade. Portanto, a proposta pedagógica de desconstrução do binarismo conceitual (homem/mulher, heterossexual/homossexual, p. ex.) e a tentativa de mostrar as suas interdependências e não suas oposições.

Por isso, a necessidade de uma subversão, no sentido em que ela reside no momento da “não-inteligibilidade”, ou seja, “o ponto que não se consegue explicar ou pensar, para daí abandonar as regras criadas e reforçadas pela ordem” [LOURO, Guacira].

A instituição escolar se mostra um dos aparelhos mais eficientes no controle da sexualidade, dos corpos e das almas. Elas proliferam o único modo “normal” de masculinidade e feminilidade, e uma única saída de desejo sexual, a heterossexualidade. Sair destes esquemas é transgredir/desconsertar, assim como “um corpo estranho” questiona as estruturas normatizadoras.

Cabe pensar é que nossa época ainda pensa a sexualidade como foi concebida no século XIX pela ciência, ou seja, pensa binariamente. Por isso, a importância de se questionar, de subverter a ordem de pensamento da sexualidade. As marcas de gênero e sexualidade são invenções sociais, portanto, contingentes e deste modo, mutáveis e não fixas como pensamos sê-las.


segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Venha, sente-se e beba.



As Dionisíacas-Urbanas


"Os iniciados no culto à Dioniso usavam mascáras..."


Dionisíaca!

Palavra insana que ecoa da voz,
ébria, impura e hedonista.
Irracional, é irracional a alma do mundo,
quem são esses seres, Humanos? Tortos?
embriagados pela nudez de Eshu,
deus símile, quem sabe de Baco!
Bebam, bebam infelizes!
deixem o espírito mundano emporcalhar sua alma,
adornar a existência,
transformar tudo em arte.
Daí seremos libertos,
deste pecado cristão da carne,
e deixaremos ao tempo a sua morte,
sua podridão,
sua excelência, que nos deixa vivo!

Das dionisíacas tenho muito a falar. As bacantes, consideradas mulheres insanas, apenas por incorporarem o espírito do grandioso Deus do vinho, Dioniso. Na mitologia o deus é filho de Sêmele, mortal que grávida de Zeus se atreveu a olhar o esplender dos seus segredos mais profundos, sua verdadeira face. A mortal ao ver tal grandeza é morta flamejada pelos brilhos do grande deus do Olímpio.
Segundo o mito, Dioniso ordenou a seus súditos que lhe trouxesse uma bebida que o alegrasse e envolvesse todos os sentidos. Trouxeram-lhe néctares diversos, mas Dioniso não se sentiu satisfeito até que ofereceram o vinho. O deus encheu-se de encanto ao ver a bebida, suas cores, nuances e forma como brilhava ao Sol, ao mesmo tempo em que sentia o aroma frutado que exalava dos jarros à sua frente. Quando a bebida tocou seus lábios, sentiu a maciez do corpo do vinho e percebeu seu sabor único, suave e embriagador.
Mas venho falar das mênades ou bacantes, mulheres afamadas por incorporarem Eshu, ops, Dioniso. Mas não só elas, porque não: os homens marginalizados, ébrios noturnos sem norte. Todos podem fazer parte da comemoração, basta estar disposto a perder sua individualidade. Os iniciados no culto ao Deus do vinho usavam máscaras, símbolos da submersão da sua identidade no outro, o transe dionisíaco!
Estes transes eram uma purificação de suas inibições, quase uma catarse, a fundição total dos seres, no ritual toda a sua individualidade deve ser dada ao deus, oferecida e queimada no fogo embriagador do vinho, do sexo, dos prazeres. Um dos epítetos mais importantes para o deus era eleutherios, ‘o libertador’, nome também empregado em alguns mitos à Eros, produtor dos aphrodisia, toda a dinâmica associativa entre o desejo e o prazer que dele é sucinto. Eros é o erótico, o romântico, o apaixonado, claro fazendo uma leitura romântica, mas é ele o produtor de todos estes agradáveis prazeres humanos.
Desinibir-se de si mesmo, até mesmo do seu próprio corpo, e se entregar ao outro, deixar-se fundir, é um preceito ideal para a sociabilidade. Das lagrimas de Dioniso foi criado a humanidade, isto nos mostra nossa herança auto-destruidora e embriagada. Quando mais delirante mais próximo o homem chega à verdade, porém o delírio é intensificado, por ser um fim humano seu Ser Social, na fusão com o Outro.
As mascarás dionisíacas nos permitem se entregar ao público e deixar Ser, mesmo e outro ao mesmo tempo. As categorias sexuais não passam de uma farsa imposta, a grilhões, aos seres humanos. Orgástica e criativa é a essência humana.




Buck Angel transexual masculino.






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(...) Ahh!

sábado, 11 de setembro de 2010

Somos sim! Bicha, Puta, Sapatão e Maconheiras...




Queer é um termo inglês que significa estranho, mas era empregado para designar os homossexuais masculinos que eram considerados excessivamente efeminados de forma pejorativa, assim como os termos “viado”, “bicha”, “boiola” e tantos outros conhecidos no Brasil.

Atualmente queer é utilizado para abranger todas as formas de sexualidade que são consideradas “estranhas” dentro da heteronormatividade. Nas artes o queer pode ser identificado com o camp “uma estética de sensibilidade em que algo atraente é devido ao seu ‘mau gosto’ e ‘irônia’”. Percebe-se que em ambos existe um conteúdo ironizado, uma espécie de protesto para seus objetos que são considerados de mau gosto, feio, inferior...

Vê-se o quanto os discursos são construídos para a inferiorização daquilo que não é interessante para o Sistema, cria-se instrumentos de subalternização dessas categorias que são reproduzidas deste a educação de cada indivíduo. Bicha, viado, sapatão, traveco são termos que carregam em si mesmos estes discursos inferiores.

A sexualidade é performática! Assim como o gênero. A partir dos discursos proferidos cada individuo atua conforme as especialidades pré-estabelecidas. O camp estando ligado ao campo das artes, imagético, encontra na performance artística um modo de ironizar esses discursos e de desconstruir esses significados, ou melhor, esses protocolos. Mais sobre o camp.

O importante é pensar que não devemos identificar os indivíduos pela sua sexualidade. Cada individuo possui uma subjetividade complexa, negar isso é ridículo, afinal estamos vivos e temos consciência desta realidade. Me chamem de bicha, puta, maconheiro, mas não se esqueçam que ainda existe um ‘eu’ que pode ser conhecido e que não se reduz a esses meros conceitos redutores e “objetivos”( para os olhos de alguns)...




Cena do filme Pink Flamingos (1972) dirigido por John Waters lançado no circuito underground, um dos maiores ícones do cinema camp.





Teu pai já sabe? - Cuida da tua vida

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Introdução



Quão libertos somos?

Uma pergunta a se fazer para todos os que se intitulam ‘libertários’. Somos acoimados em todos os âmbitos de nossas vidas, como animais domesticados para reproduzir todos os discursos proferidos pelo Sistema. Somos corpos domesticados!

Falarei aqui do Queercore um filho do punk que resolveu caminhar pelos guetos gays. Tão sujo quanto o punk o queercore se utiliza da música como forma de manifestação contra os preconceitos proferidos pela heteronormatividade e também pelas categorias dadas aos gays pelos movimentos sociais LGBT. Enquadrar todos esses sujeitos, cada um dono de uma sexualidade particular e abstrusa, dentro de uma categoria universalizadora, pode ser um dos mundos possíveis, mas não é a resolução para a complexidade que é o campo da diversidade sexual.

Não se trata apenas de uma reivindicação do campo da política, mas uma reivindicação subjetiva. “Eu não me enquadro nesta categoria a qual me encaixaram” E aí eu não sou Gay?

Entender a contribuição dos movimentos sociais LGBT é plausível, mas continuar a reproduzir estas enfadosas categorias generalizadoras, é caminhar para uma nova forma de repressão, esta porém reproduzida pelo próprio movimento gay. O individuo não deve ser identificado diretamente pela sua sexualidade, ele é um individuo que contem suas próprias características que muito das vezes não são marcadas pela sua sexualidade.

A proposta aqui não é simples: definir um conceito sem definir o individuo.

No impresso de divulgação da segunda edição do Queerfest, em março de 2008, foi publicado um texto de Michelle o’Brien intitulado How to define a term without defining the person – como definir um termo sem definir a pessoa – que diz: “Vejo-me relutante em dizer sou um homem ou sou uma mulher, ou fui um homem ou fui uma mulher ou me tornei isto ou aquilo; tão quanto me sinto relutante em dizer sou intersexual, ou sou transgênero ou sou intergênero, ou sou gay, ou sou lésbica, ou não sou gay – porque isso não define quem sou. São apenas formas de me categorizar, de modo que outros tenham poder sobre mim; este poder é tão significante que todas as forças do Estado e da medicina se envolvem na tentariva de forçar tal conformidade…” Esse pensamento, que parece proceder da História da Sexualidade de Foucault, expressa de forma pungente o desafio considerável que o queercore, enquanto proposta política, ainda tem de enfrentar.

Queercore pode ser definido na seguinte colocação: “(…) Talvez a definição esteja baseada mais na expressão individual, mas dizem que é o tipo de coisa que você reconhece quando vê. Ao invés de tentar categorizar e definir, as pessoas tendem a se juntar a ele, exatamente por sua diversidade, por ser interessante e pelas possibilidades a serem desenvolvidas a partir do conceito original. Muitas pessoas optam por usar o termo queercore pra se afastar das imagens trazidas pela associação com o movimento punk, e para incluir tanto os punks gays como todas as outras coisas que refletem suas idéias básicas (…).” – Revista Oasis