Dionisíaca!
Palavra insana que ecoa da voz,
ébria, impura e hedonista.
Irracional, é irracional a alma do mundo,
quem são esses seres, Humanos? Tortos?
embriagados pela nudez de Eshu,
deus símile, quem sabe de Baco!
Bebam, bebam infelizes!
deixem o espírito mundano emporcalhar sua alma,
adornar a existência,
transformar tudo em arte.
Daí seremos libertos,
deste pecado cristão da carne,
e deixaremos ao tempo a sua morte,
sua podridão,
sua excelência, que nos deixa vivo!
Das dionisíacas tenho muito a falar. As bacantes, consideradas mulheres insanas, apenas por incorporarem o espírito do grandioso Deus do vinho, Dioniso. Na mitologia o deus é filho de Sêmele, mortal que grávida de Zeus se atreveu a olhar o esplender dos seus segredos mais profundos, sua verdadeira face. A mortal ao ver tal grandeza é morta flamejada pelos brilhos do grande deus do Olímpio.
Segundo o mito, Dioniso ordenou a seus súditos que lhe trouxesse uma bebida que o alegrasse e envolvesse todos os sentidos. Trouxeram-lhe néctares diversos, mas Dioniso não se sentiu satisfeito até que ofereceram o vinho. O deus encheu-se de encanto ao ver a bebida, suas cores, nuances e forma como brilhava ao Sol, ao mesmo tempo em que sentia o aroma frutado que exalava dos jarros à sua frente. Quando a bebida tocou seus lábios, sentiu a maciez do corpo do vinho e percebeu seu sabor único, suave e embriagador.
Mas venho falar das mênades ou bacantes, mulheres afamadas por incorporarem Eshu, ops, Dioniso. Mas não só elas, porque não: os homens marginalizados, ébrios noturnos sem norte. Todos podem fazer parte da comemoração, basta estar disposto a perder sua individualidade. Os iniciados no culto ao Deus do vinho usavam máscaras, símbolos da submersão da sua identidade no outro, o transe dionisíaco!
Estes transes eram uma purificação de suas inibições, quase uma catarse, a fundição total dos seres, no ritual toda a sua individualidade deve ser dada ao deus, oferecida e queimada no fogo embriagador do vinho, do sexo, dos prazeres. Um dos epítetos mais importantes para o deus era eleutherios, ‘o libertador’, nome também empregado em alguns mitos à Eros, produtor dos aphrodisia, toda a dinâmica associativa entre o desejo e o prazer que dele é sucinto. Eros é o erótico, o romântico, o apaixonado, claro fazendo uma leitura romântica, mas é ele o produtor de todos estes agradáveis prazeres humanos.
Desinibir-se de si mesmo, até mesmo do seu próprio corpo, e se entregar ao outro, deixar-se fundir, é um preceito ideal para a sociabilidade. Das lagrimas de Dioniso foi criado a humanidade, isto nos mostra nossa herança auto-destruidora e embriagada. Quando mais delirante mais próximo o homem chega à verdade, porém o delírio é intensificado, por ser um fim humano seu Ser Social, na fusão com o Outro.
As mascarás dionisíacas nos permitem se entregar ao público e deixar Ser, mesmo e outro ao mesmo tempo. As categorias sexuais não passam de uma farsa imposta, a grilhões, aos seres humanos. Orgástica e criativa é a essência humana.










